Vinte minutos
Os convidados avisaram que estão saindo de casa. São vinte minutos de trajeto, e vocês estão se olhando de um jeito que não tem nada a ver com jantar.
A mensagem chega enquanto você tira a travessa do forno: *saindo daqui agora*.
Vinte minutos de trajeto. Vinte e cinco, se pegarem trânsito na ponte.
Você anuncia isso em voz alta, do jeito prático de quem está calculando tempo de forno, e não recebe resposta nenhuma.
Quando você se vira, entende por quê.
Está encostado no batente da cozinha, com a camisa que ia vestir ainda na mão, olhando para você de um jeito que não tem absolutamente nada a ver com o jantar.
— Vinte minutos — você repete, mais devagar.
— Eu ouvi.
— A mesa não está posta.
— Eu sei.
Existe um cálculo rápido acontecendo dentro de você, e o cálculo tem componentes de logística — o forno, a mesa, o gelo que não foi feito — e mais ou menos nenhum deles vence.
— Dezoito — você diz.
O corredor até o quarto é curto e mesmo assim vocês param duas vezes nele.
A gaveta da mesa de cabeceira abre com aquele barulho que só ela faz, e o pote de gel está mais no fundo do que devia porque ninguém guarda direito.
— Frio — reclamam.
— A culpa é sua. Você que decidiu isso agora.
Rir atrapalha, e vocês riem mesmo assim, e é o tipo de riso que não tira nada da noite — só tira o peso.
Existe uma qualidade específica da pressa que nenhum sábado de manhã tem. É a certeza de que não dá tempo de fazer direito, e é exatamente por não dar tempo que ninguém está avaliando nada.
Ninguém pergunta se está bom. Ninguém pensa em desempenho. Só existe o relógio e o que dá para fazer contra ele.
Às onze para as nove, o interfone toca.
Vocês param. Se olham. Ninguém se mexe.
— Deixa tocar — você diz.
E deixam.
Quando finalmente abrem a porta, dois minutos e meio depois, você está com a camisa errada e alguém comenta que vocês parecem sem fôlego.
— A escada — você diz.
O elevador funciona perfeitamente e todo mundo naquele prédio sabe disso.
Gostaram de ler junto?
A Mesa tem os dados e a raspadinha — para quando a leitura acabar e a noite continuar.
Ir para A MesaSe faltar material para a noite, a boutique tem caixas.
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O elevador parou
Quarenta segundos entre dois andares. Tempo suficiente para dizer o que você vinha engolindo desde a sobremesa.
A mesa dos amigos
Seis pessoas, uma toalha comprida e uma conversa sobre reforma de cozinha. Debaixo da mesa, outra coisa acontecendo.
A mensagem das três da tarde
Uma frase, mandada no meio do expediente, sem contexto e sem chance de resposta. O dia inteiro depende dela.
A caixa chegou hoje
Uma caixa sem nome, sem descrição e sem nenhuma pista do lado de fora. Passou o dia inteiro em cima da mesa, esperando os dois chegarem.
Quando a luz caiu
O bairro inteiro no escuro, sem previsão de volta. Duas horas em que ninguém consegue ver nada — e é justamente por isso que tudo passa a ser sentido.
Hotel na própria cidade
Doze minutos de carro. Uma noite fora de casa sem sair da cidade. Ninguém precisa saber que vocês fizeram isso.