O elevador parou
Quarenta segundos entre dois andares. Tempo suficiente para dizer o que você vinha engolindo desde a sobremesa.
O jantar acabou tarde. Vocês desceram calados, do jeito que se desce quando a casa está a dez minutos e o cansaço já passou de um certo ponto.
Entre o oitavo e o sétimo andar, a luz pisca e o elevador para.
Não é medo. É outra coisa. É que de repente o mundo encolheu para dois metros quadrados e você percebe, com uma clareza quase constrangedora, que faz meses que vocês não ficam assim — sem uma tela, sem uma tarefa, sem alguém chamando de outro cômodo.
Você olha. A pessoa ao seu lado está olhando de volta. O silêncio muda de textura.
— Quarenta segundos — você diz. — Depois disso eles religam e a gente esquece.
— Quarenta segundos para quê?
Você sabe exatamente para quê. Vinha ensaiando desde a sobremesa, quando os dedos dela encostaram nos seus por acidente e nenhum dos dois puxou a mão de volta.
— Para eu dizer uma coisa que eu não digo há muito tempo.
O ar do elevador é quente e parado. Você ouve a própria respiração, e ouve a do outro, e percebe que as duas mudaram de ritmo ao mesmo tempo.
— Diz.
Você diz. Baixo, quase no ouvido, porque num espaço daquele tamanho não existe motivo para levantar a voz. Diz o que quer. Não o que é aceitável querer, não o que caberia numa conversa de terça-feira. O que quer mesmo.
A resposta demora três segundos. Três segundos em que você considera seriamente a possibilidade de o elevador nunca mais voltar a funcionar, e considera com alguma esperança.
— Você sabe que eu ia dizer sim, né?
— Não sabia.
— Pois é. Devia saber.
A mão dela encontra a sua na altura da cintura, e a luz volta, e o elevador range e recomeça a descer.
Sétimo. Sexto.
Nenhum dos dois se mexe.
— Ainda tem seis andares — ela diz.
E é a coisa mais indecente que você ouve em muito tempo, dita com a maior calma do mundo, com o olho fixo no painel dos números como se estivesse apenas informando.
Você aperta o botão do térreo, depois o do subsolo, depois volta a olhar para ela.
— Então a gente tem tempo.
Gostaram de ler junto?
A Mesa tem os dados e a raspadinha — para quando a leitura acabar e a noite continuar.
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