A mensagem das três da tarde
Uma frase, mandada no meio do expediente, sem contexto e sem chance de resposta. O dia inteiro depende dela.
Chega às 15h04, entre um e-mail de cobrança e uma reunião que ninguém queria.
Uma frase. Sem bom dia, sem emoji, sem nada que amenize. Só a frase.
Você lê três vezes. Na terceira, você olha em volta na sala como se alguém pudesse ter lido junto — e ninguém leu, claro, e é justamente isso que faz o efeito ser tão desproporcional.
Você começa a responder. Apaga. Começa de novo. Apaga de novo.
Porque o combinado, feito na noite anterior meio de brincadeira, era esse: uma frase cada um, em algum momento entre as duas e as quatro, e ninguém responde. A espera é o ponto.
Você guarda o celular na gaveta. Isso ajuda por uns onze minutos.
Às 15h40 você percebe que releu o mesmo parágrafo de um relatório quatro vezes. Às 16h10 você inventa um motivo para ir até o café só para ter dois minutos sozinho. Às 16h30 você desiste da produtividade do dia inteiro e aceita que perdeu.
Manda a sua frase às 16h47, atrasado, do banheiro do escritório, com o coração absurdamente acelerado para alguém que está apenas digitando.
A resposta não vem. Combinado é combinado.
Mas às 17h02 aparece um visto. Só o visto.
E o visto, você descobre naquele instante, pode ser a coisa mais barulhenta do mundo.
O trajeto de volta para casa demora o que sempre demora e parece durar o dobro. Você repassa a frase dela. Repassa a sua. Percebe que escolheu cada palavra com um cuidado que não usa nem em contrato.
A porta abre antes de você tocar a chave na fechadura.
— Você atrasou — ela diz, encostada no batente, ainda com a roupa do trabalho.
— Eu sei.
— Quarenta e sete minutos.
— Eu contei também.
Ela não sai da frente da porta. Fica ali, olhando, com aquele meio sorriso de quem sabe exatamente o tamanho do estrago que causou às três da tarde.
— Então repete — ela diz. — Agora, olhando pra mim. Do jeito que você escreveu.
E você descobre que escrever era a parte fácil.
Gostaram de ler junto?
A Mesa tem os dados e a raspadinha — para quando a leitura acabar e a noite continuar.
Ir para A Mesa