Hotel na própria cidade
Doze minutos de carro. Uma noite fora de casa sem sair da cidade. Ninguém precisa saber que vocês fizeram isso.
A ideia é ridícula e vocês dois sabem. Um hotel a doze minutos de casa. Doze. Dá para ir a pé, se der vontade.
Mas é exatamente por ser ridícula que funciona.
Porque em casa tem a louça, a roupa na máquina, o barulho do vizinho, a lista mental que nunca desliga. E ali, naquele quarto genérico com quadro genérico e cortina pesada demais, não tem nada. Nenhuma tarefa. Nenhuma prova de que vocês são adultos responsáveis com contas a pagar.
Vocês fazem o check-in às sete da noite, com uma mochila só, e o rapaz da recepção não pergunta nada porque não é da conta dele.
No elevador — outro elevador, você pensa, e ri sozinho — ela pergunta:
— A gente tem quanto tempo?
— A noite inteira.
— Não. Quanto tempo até um de nós dois lembrar de alguma coisa que precisa ser resolvida amanhã?
Você pensa. É uma pergunta honesta.
— Uns quarenta minutos.
— Então a gente tem quarenta minutos pra desligar isso direito.
O quarto é morno. Ela tira os sapatos primeiro, do jeito que a gente tira sapato quando decidiu que aquele espaço é seguro. Senta na beirada da cama e bate no colchão do lado.
— Regra da noite — ela diz. — Nada precisa acontecer.
— Nada?
— Nada. Se a gente dormir às nove, deu certo do mesmo jeito. Eu só quero ficar num lugar onde ninguém vai me chamar.
E é engraçado, porque é ouvindo isso — a coisa menos sedutora que ela poderia ter dito, tecnicamente — que você sente a primeira mudança real na noite.
Você senta ao lado. Não encosta ainda.
— Tá bom. Nada precisa acontecer.
— Ótimo.
— Mas se acontecer?
Ela demora para responder. Está olhando para o teto, com aquela expressão de quem está genuinamente considerando, não de quem está jogando.
— Se acontecer — ela diz — eu quero que seja devagar. Do jeito que não dá em casa, com um ouvido na porta.
Você deita de lado, apoiado no cotovelo, e olha para ela por um tempo que em qualquer outro contexto seria constrangedor.
— Quanto tempo faz que a gente não tem devagar?
— Muito.
A cortina pesada demais faz o quarto ficar mais escuro do que devia às sete e meia da noite. Lá fora é a mesma cidade de sempre, o mesmo trânsito, a mesma padaria da esquina.
E aqui dentro, a doze minutos de casa, vocês dois estão finalmente em outro lugar.
Gostaram de ler junto?
A Mesa tem os dados e a raspadinha — para quando a leitura acabar e a noite continuar.
Ir para A Mesa