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Fuga5 min de leitura

Hotel na própria cidade

Doze minutos de carro. Uma noite fora de casa sem sair da cidade. Ninguém precisa saber que vocês fizeram isso.

A ideia é ridícula e vocês dois sabem. Um hotel a doze minutos de casa. Doze. Dá para ir a pé, se der vontade.

Mas é exatamente por ser ridícula que funciona.

Porque em casa tem a louça, a roupa na máquina, o barulho do vizinho, a lista mental que nunca desliga. E ali, naquele quarto genérico com quadro genérico e cortina pesada demais, não tem nada. Nenhuma tarefa. Nenhuma prova de que vocês são adultos responsáveis com contas a pagar.

Vocês fazem o check-in às sete da noite, com uma mochila só, e o rapaz da recepção não pergunta nada porque não é da conta dele.

No elevador — outro elevador, você pensa, e ri sozinho — ela pergunta:

— A gente tem quanto tempo?

— A noite inteira.

— Não. Quanto tempo até um de nós dois lembrar de alguma coisa que precisa ser resolvida amanhã?

Você pensa. É uma pergunta honesta.

— Uns quarenta minutos.

— Então a gente tem quarenta minutos pra desligar isso direito.

O quarto é morno. Ela tira os sapatos primeiro, do jeito que a gente tira sapato quando decidiu que aquele espaço é seguro. Senta na beirada da cama e bate no colchão do lado.

— Regra da noite — ela diz. — Nada precisa acontecer.

— Nada?

— Nada. Se a gente dormir às nove, deu certo do mesmo jeito. Eu só quero ficar num lugar onde ninguém vai me chamar.

E é engraçado, porque é ouvindo isso — a coisa menos sedutora que ela poderia ter dito, tecnicamente — que você sente a primeira mudança real na noite.

Você senta ao lado. Não encosta ainda.

— Tá bom. Nada precisa acontecer.

— Ótimo.

— Mas se acontecer?

Ela demora para responder. Está olhando para o teto, com aquela expressão de quem está genuinamente considerando, não de quem está jogando.

— Se acontecer — ela diz — eu quero que seja devagar. Do jeito que não dá em casa, com um ouvido na porta.

Você deita de lado, apoiado no cotovelo, e olha para ela por um tempo que em qualquer outro contexto seria constrangedor.

— Quanto tempo faz que a gente não tem devagar?

— Muito.

A cortina pesada demais faz o quarto ficar mais escuro do que devia às sete e meia da noite. Lá fora é a mesma cidade de sempre, o mesmo trânsito, a mesma padaria da esquina.

E aqui dentro, a doze minutos de casa, vocês dois estão finalmente em outro lugar.

Gostaram de ler junto?

A Mesa tem os dados e a raspadinha — para quando a leitura acabar e a noite continuar.

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