A caixa chegou hoje
Uma caixa sem nome, sem descrição e sem nenhuma pista do lado de fora. Passou o dia inteiro em cima da mesa, esperando os dois chegarem.
A caixa está na mesa da cozinha desde as onze da manhã.
Não tem marca. Não tem descrição. Do lado de fora poderia ser qualquer coisa — um livro, um par de tênis, uma peça de máquina de lavar. É exatamente esse o ponto, e você pensou nisso quando comprou.
O que você não previu foi o efeito de ela ficar ali o dia inteiro, no meio do caminho de todo mundo, em silêncio, sendo desviada quatro vezes por dia sem que ninguém falasse nada sobre ela.
Vocês jantam. A caixa está a um metro dos pratos.
Vocês lavam a louça. A caixa continua ali.
— A gente vai fingir até que horas? — você pergunta, secando as mãos.
— Eu ia esperar você tocar no assunto.
— Você esperou nove horas.
— Foram boas nove horas.
Levam a caixa para o quarto. Não é uma decisão discutida — é só o que acontece, do jeito que certas coisas acontecem sem que ninguém precise propor.
Abrir leva mais tempo do que devia. Tem fita demais, e vocês estão rindo, e rir atrapalha as mãos.
Lá dentro é menor do que a caixa fazia parecer. Sempre é.
Vocês tiram uma coisa de cada vez e colocam em cima da cama, lado a lado, como quem organiza peças de um jogo antes de aprender a regra.
O creme é o primeiro. Você abre, cheira, oferece o pulso.
— Passa aqui.
A mão que espalha vai devagar, mais devagar do que precisaria, e para no meio do antebraço quando percebe que ninguém está mais falando.
O gel vem depois. Frio na palma, morno quase imediatamente, e o comentário que alguém faz sobre a temperatura sai com a voz meio errada, uma nota abaixo do normal.
O último item fica na sua mão por um tempo. É pequeno, mais leve do que parecia na foto, e você percebe que está com ele há uns bons segundos sem dizer nada.
— Você quer? — a pergunta chega direta, sem rodeio, sem aquele tom de brincadeira que serve para dar rota de fuga aos dois.
E é isso que muda a noite: ninguém está brincando.
— Quero. — Você ouve a própria voz e ela sai firme. — Mas hoje quem decide o ritmo sou eu.
— Combinado.
— E se eu falar amarelo, você para e a gente conversa.
— Combinado.
A caixa vazia acaba no chão do lado da cama, e nenhum dos dois vai lembrar de recolher.
A luz do abajur fica acesa porque alguém pediu que ficasse.
Gostaram de ler junto?
A Mesa tem os dados e a raspadinha — para quando a leitura acabar e a noite continuar.
Ir para A MesaSe faltar material para a noite, a boutique tem caixas.
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Quarenta segundos entre dois andares. Tempo suficiente para dizer o que você vinha engolindo desde a sobremesa.
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Vinte minutos
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Hotel na própria cidade
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