Quando a luz caiu
O bairro inteiro no escuro, sem previsão de volta. Duas horas em que ninguém consegue ver nada — e é justamente por isso que tudo passa a ser sentido.
A luz cai às nove e vinte, sem aviso, no meio de uma série que nenhum dos dois estava realmente assistindo.
Silêncio primeiro. Depois o silêncio de verdade — o da geladeira que parou, do ar-condicionado que parou, de todo o zumbido de fundo da casa desligando de uma vez.
— Caiu no bairro todo — vem a voz do outro lado do sofá. — Não tem luz em janela nenhuma.
Vocês acendem a lanterna do celular. Depois desligam, porque a lanterna do celular é a luz mais feia já inventada e transforma qualquer sala numa sala de interrogatório.
Sobra uma vela de aniversário achada numa gaveta e um pote de vidro para segurar ela. Dura vinte minutos e vocês sabem disso.
Quando apaga, apaga de vez.
Escuro de não enxergar a própria mão. Você estica o braço e não encontra nada onde deveria ter alguém.
— Você está aí?
— Estou.
— Onde?
— Descobre.
Você descobre com a mão, o que é a única forma disponível, e o que a mão encontra primeiro é um joelho. Depois a lateral da coxa. Depois nada, porque quem estava ali mudou de lugar sem fazer barulho.
— Você trocou de lugar.
— Troquei.
Existe uma injustiça óbvia nisso e vocês dois sabem, e é justamente a injustiça que faz você continuar procurando em vez de reclamar.
Da segunda vez você encontra um pulso e segura.
No escuro completo, segurar um pulso é uma quantidade absurda de informação. Você sente a pulsação, sente a temperatura, sente o momento exato em que a respiração muda — e não sente mais nada, porque não tem mais nada para ver.
É como se todo o resto do corpo tivesse sido convocado para um trabalho que os olhos faziam sozinhos até agora.
— Fica parado — você diz. — Só um minuto.
Você percorre o braço inteiro com dois dedos, do pulso ao ombro, devagar, sem chegar a lugar nenhum. Sente a pele arrepiar em dois pontos e memoriza os dois.
Ouve a respiração falhar uma vez.
— Isso não é justo — dizem, baixo.
— Você começou.
A luz volta às onze e quarenta.
Você acorda com a lâmpada da sala acesa em cima de vocês dois, a televisão pedindo senha de wi-fi, o mundo inteiro ligando de novo ao mesmo tempo.
E a primeira coisa que qualquer um dos dois diz, com a voz de quem está genuinamente decepcionado, é:
— Que pena.
Gostaram de ler junto?
A Mesa tem os dados e a raspadinha — para quando a leitura acabar e a noite continuar.
Ir para A MesaSe faltar material para a noite, a boutique tem caixas.
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O elevador parou
Quarenta segundos entre dois andares. Tempo suficiente para dizer o que você vinha engolindo desde a sobremesa.
A mesa dos amigos
Seis pessoas, uma toalha comprida e uma conversa sobre reforma de cozinha. Debaixo da mesa, outra coisa acontecendo.
A mensagem das três da tarde
Uma frase, mandada no meio do expediente, sem contexto e sem chance de resposta. O dia inteiro depende dela.
A caixa chegou hoje
Uma caixa sem nome, sem descrição e sem nenhuma pista do lado de fora. Passou o dia inteiro em cima da mesa, esperando os dois chegarem.
Vinte minutos
Os convidados avisaram que estão saindo de casa. São vinte minutos de trajeto, e vocês estão se olhando de um jeito que não tem nada a ver com jantar.
Hotel na própria cidade
Doze minutos de carro. Uma noite fora de casa sem sair da cidade. Ninguém precisa saber que vocês fizeram isso.