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Escuro4 min de leitura

Quando a luz caiu

O bairro inteiro no escuro, sem previsão de volta. Duas horas em que ninguém consegue ver nada — e é justamente por isso que tudo passa a ser sentido.

A luz cai às nove e vinte, sem aviso, no meio de uma série que nenhum dos dois estava realmente assistindo.

Silêncio primeiro. Depois o silêncio de verdade — o da geladeira que parou, do ar-condicionado que parou, de todo o zumbido de fundo da casa desligando de uma vez.

— Caiu no bairro todo — vem a voz do outro lado do sofá. — Não tem luz em janela nenhuma.

Vocês acendem a lanterna do celular. Depois desligam, porque a lanterna do celular é a luz mais feia já inventada e transforma qualquer sala numa sala de interrogatório.

Sobra uma vela de aniversário achada numa gaveta e um pote de vidro para segurar ela. Dura vinte minutos e vocês sabem disso.

Quando apaga, apaga de vez.

Escuro de não enxergar a própria mão. Você estica o braço e não encontra nada onde deveria ter alguém.

— Você está aí?

— Estou.

— Onde?

— Descobre.

Você descobre com a mão, o que é a única forma disponível, e o que a mão encontra primeiro é um joelho. Depois a lateral da coxa. Depois nada, porque quem estava ali mudou de lugar sem fazer barulho.

— Você trocou de lugar.

— Troquei.

Existe uma injustiça óbvia nisso e vocês dois sabem, e é justamente a injustiça que faz você continuar procurando em vez de reclamar.

Da segunda vez você encontra um pulso e segura.

No escuro completo, segurar um pulso é uma quantidade absurda de informação. Você sente a pulsação, sente a temperatura, sente o momento exato em que a respiração muda — e não sente mais nada, porque não tem mais nada para ver.

É como se todo o resto do corpo tivesse sido convocado para um trabalho que os olhos faziam sozinhos até agora.

— Fica parado — você diz. — Só um minuto.

Você percorre o braço inteiro com dois dedos, do pulso ao ombro, devagar, sem chegar a lugar nenhum. Sente a pele arrepiar em dois pontos e memoriza os dois.

Ouve a respiração falhar uma vez.

— Isso não é justo — dizem, baixo.

— Você começou.

A luz volta às onze e quarenta.

Você acorda com a lâmpada da sala acesa em cima de vocês dois, a televisão pedindo senha de wi-fi, o mundo inteiro ligando de novo ao mesmo tempo.

E a primeira coisa que qualquer um dos dois diz, com a voz de quem está genuinamente decepcionado, é:

— Que pena.

Gostaram de ler junto?

A Mesa tem os dados e a raspadinha — para quando a leitura acabar e a noite continuar.

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