A mesa dos amigos
Seis pessoas, uma toalha comprida e uma conversa sobre reforma de cozinha. Debaixo da mesa, outra coisa acontecendo.
A toalha é comprida. Isso é a primeira coisa que você repara quando senta, e você repara sem saber ainda por quê.
São seis à mesa. A conversa é sobre a reforma da cozinha de alguém, e é longa, e ninguém tem pressa. O vinho está na segunda garrafa.
A mão chega na sua perna em algum ponto entre o couvert e o prato principal.
Não com pressa. Não com intenção declarada. Chega como quem apoia a mão, do jeito que se apoia a mão na perna de quem você ama há anos, e fica ali, quieta, enquanto alguém explica a diferença entre dois tipos de bancada.
Você continua conversando. É importante continuar conversando.
A mão sobe um centímetro.
Você diz alguma coisa sobre iluminação embutida. Ouve a própria voz sair firme e pensa, com um resto de orgulho, que ninguém ali percebeu nada.
Outro centímetro.
Agora é diferente. Agora tem intenção, e a intenção está sendo executada com uma paciência que você não sabia que existia na pessoa que divide a sua cama.
Você olha de lado. Recebe de volta um olhar absolutamente inocente, voltado para quem fala, com um interesse genuíno em bancadas de quartzo.
É desleal. É deliciosamente desleal.
A regra do jogo se estabelece sozinha, sem ninguém combinar nada: você não pode reagir. Não pode virar, não pode segurar a mão, não pode mudar de assunto de um jeito que denuncie. Qualquer coisa que você faça vai ser vista por seis pessoas.
E é justamente por não poder fazer nada que o resto do corpo passa a prestar uma atenção que você não pedia.
Alguém pergunta a sua opinião sobre alguma coisa. Você responde. Depois não vai lembrar o que.
A sobremesa demora. A sobremesa demora uma vida.
Em algum momento você encontra o pé debaixo da mesa e apoia o seu contra ele — é o único movimento que a toalha esconde, e é a sua única resposta possível.
Recebe uma pressão de volta. Só isso. Uma pressão.
É a coisa mais explícita que já aconteceu com você numa mesa de jantar.
Quando finalmente pedem a conta, você se levanta rápido demais e alguém brinca que vocês estão com pressa.
— Amanhã cedo — você diz.
É mentira, e a mentira é dita sem nenhum constrangimento, olhando para a frente, enquanto uma mão encontra a sua na altura do quadril e aperta uma vez.
No carro, ninguém liga o rádio.
— Você é uma pessoa terrível — você diz.
— São vinte minutos até em casa.
— Dezoito.
— Então corre.
Gostaram de ler junto?
A Mesa tem os dados e a raspadinha — para quando a leitura acabar e a noite continuar.
Ir para A MesaSe faltar material para a noite, a boutique tem caixas.
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O elevador parou
Quarenta segundos entre dois andares. Tempo suficiente para dizer o que você vinha engolindo desde a sobremesa.
A mensagem das três da tarde
Uma frase, mandada no meio do expediente, sem contexto e sem chance de resposta. O dia inteiro depende dela.
A caixa chegou hoje
Uma caixa sem nome, sem descrição e sem nenhuma pista do lado de fora. Passou o dia inteiro em cima da mesa, esperando os dois chegarem.
Quando a luz caiu
O bairro inteiro no escuro, sem previsão de volta. Duas horas em que ninguém consegue ver nada — e é justamente por isso que tudo passa a ser sentido.
Vinte minutos
Os convidados avisaram que estão saindo de casa. São vinte minutos de trajeto, e vocês estão se olhando de um jeito que não tem nada a ver com jantar.
Hotel na própria cidade
Doze minutos de carro. Uma noite fora de casa sem sair da cidade. Ninguém precisa saber que vocês fizeram isso.