O banho que demorou
Onze da noite, um dia ruim e água quente demais. A porta do banheiro abre no meio, e o barulho da água cobre qualquer coisa que for dita ali dentro.
A cena acontece. Descrita pela sensação, não pela anatomia.
Onze da noite. O dia foi ruim de um jeito difícil de explicar, e a única decisão inteligente que você toma desde as sete é abrir o chuveiro na temperatura mais alta que a sua pele aguenta.
O vapor toma o banheiro inteiro em dois minutos. O espelho some. A água bate na sua nuca, escorre pelas costas e leva embora uns quatro problemas de tamanho médio.
A porta abre. Você reconhece pelo barulho — aquela dobradiça nunca foi consertada.
— Você tá aí há vinte minutos. — Tô. — A conta de água vem no dia dez. — Vem.
Silêncio. A água continua caindo. Do outro lado do vidro embaçado tem uma silhueta que não foi embora.